A vida em um mundo de ansiedade

Ansiedade é excesso de futuro. É viver em um momento que ainda não aconteceu e se entregar às possibilidades em nossa mente ao invés de aos fatos à nossa volta. Se essas possibilidades soam exageradamente positivas, é um delírio; se são catastróficas, temos uma crise de ansiedade. E na era da velocidade, das oportunidades infinitas e da avalanche de conteúdo, não é de se surpreender que estejamos todos tão ansiosos.

Saber tudo o que acontece no planeta em tempo real, estar exposto diariamente à vida alheia nas redes sociais (que quase sempre parece melhor que a nossa) e tentar acompanhar um mundo que todo dia tem uma novidade são gatilhos para a maioria de nós. Hoje, vivemos num perpétuo choque entre a nossa vida real e nossa “vida possível”, ou seja, tudo que poderíamos ser ou fazer, todos os riscos e possibilidades.

Viver no momento está cada vez mais difícil.

Se há 50 anos o objetivo de vida de um recém-formado era se casar, comprar uma casa e ter um emprego fixo, hoje, para toda uma geração, é quase o oposto. A busca por satisfação total e imediata, sem contar o medo (que é um fator presente em nossas vidas), tem tornado o ato de se comprometer cada vez mais raro, afinal, como se comprometer com um lugar, algo ou alguém, se há um mundo de oportunidades e a próxima pode te deixar ainda mais feliz que a anterior?

Refletindo nesta linha, Bauman chegou ao conceito de modernidade líquida: contrapondo-se às relações sólidas do passado, expôs uma nova época em que as relações pessoais, sociais e econômicas são cada vez mais frágeis e maleáveis. Acompanhando este pensamento, surge uma outra tese, o Mundo VUCA, sobre o qual falamos em outro texto, sugerindo um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo. E mais recentemente, levando em conta exatamente esta ansiedade crescente de nossa época, surgiu uma outra corrente de pensamento, BANI.

BANI é um acrônimo para Frágil, Ansioso, Não Linear e Incompreensível (no inglês: brittle, anxious, nonlinear e incomprehensible), proposto pelo antropólogo americano Jamais Cascio, em 2018, e que ganhou força após a pandemia mundial de 2020. Ele propõe que os elementos do mundo VUCA já não são suficientes para dar sentido ao caos da nossa época.

O que era volátil, ou seja, a sensação de que as coisas podem mudar a qualquer momento, deu lugar à noção de fragilidade, de que elas podem, na verdade, se despedaçar.

Se as pessoas se sentiam inseguras, em razão da incerteza, agora se sentem ansiosas, por todos os motivos que citamos acima.

O complexo deu lugar ao não-linear. Em outras palavras, não é mais uma questão de causa e efeito e agentes envolvidos, mas a realização de que não há uma conclusão linear entre as ações e as consequências, o que dá a impressão que causa e efeito estão desconectados.

E, por fim, o que era ambíguo se transforma em incompreensível. É o reconhecimento de que, diante da infinidade de dados que temos, a interpretação e a transformação deles em ações não são apenas difíceis, mas praticamente impossíveis.

Assim, o nosso VUCA virou BANI. E daqui a algumas décadas, se tornará outra sigla. E depois outra, e mais outra, porque cada época tem seus desafios e talvez essa enorme ansiedade seja o nosso.

Em um dos seus livros mais famosos, Misto Quente, publicado na década de 80, Charles Bukowski escreveu: “Que tempos difíceis eram aqueles: ter a vontade e a necessidade de viver, mas não a habilidade”. Não soa absurdamente atual?

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